Chamada de Trabalhos

100 anos da Revolução de Outubro

 

A história do comunismo está cheia de espectros. Alguns rondaram a Europa, levando a uma “Santa Aliança” das forças reformistas e conservadoras, unidas para conjurar a iminente ameaça. Outros são fantasmas do passado, pesando feito “um pesadelo que comprime o cérebro dos vivos”: invocados pela angústia dos próprios revolucionários, eles nos levam a nos repetir justamente quando estamos preocupados com “criar algo nunca antes visto”. Mas existe também um terceiro tipo de espectro, aqueles que são criados pelas revoluções na medida em que essas transformam nossos horizontes de expectativa e assim sobrevivem até mesmo à morte das sequências políticas nas quais se originaram. Esse fantasma, diferente daquele que ronda o presente, e daquele que insiste do passado, muda a forma do futuro.

A Revolução de Outubro na Russia – que completa 100 anos em 2017 – é um evento que pode ser lido da perspectiva de qualquer um desses três espectros. As notícias da revolução se alastraram rapidamente pela Europa, e mais além, incitando tanto as paixões emancipatórias quanto as conservadoras, a esperança e o medo daqueles que não sabiam como responder à primeira insurreição popular de sucesso na história moderna. Mas o espectro que rondava o mundo rapidamente transformou-se também num forçoso imperativo vindo do passado, demandando que cada novo esforço de emancipação coletiva tomasse “emprestado os seus nomes, as suas palavra de ordem, o seu figurino, a fim de representar, com essa venerável roupagem tradicional e essa linguagem tomada de empréstimo, as novas cenas da história mundial”. Revolucionários de toda parte sentiram – e ainda sentem – a pressão do passado Bolchevique pesando sobre nós, demandando que nossos métodos e conquistas sejam mensurados em comparação aos sucessos e atrocidades da experiência soviética. Porém, a revolução não alterou apenas o presente e o passado: tanto o fracasso da sequência radical dos anos vinte quanto a derradeira catástrofe social dos anos quarenta e cinquenta não foram capazes de impedir a emergência daquele outro espectro a partir das ruínas da Revolução de Outubro, o fantasma de uma nova relação com o futuro. Celebrado por artistas, filósofos, cientistas e militantes, o futuro depois de 1917 não tinha mais os mesmos contornos: não porque o comunismo seria uma necessidade histórica – mas porque havia se tornado uma possibilidade prática e concreta, uma possibilidade encarnada na promessa de uma nova relação entre um povo e o seu destino.

A revista Crisis and Critique se dedica, desde 2014, à reformulação da teoria marxista, servindo de plataforma para investigações engajadas com a tarefa de repensar a política emancipatória desde suas bases filosóficas. Como parte das celebrações do aniversário da Revolução de Outubro, lançaremos não só um novo número da revista, como também a edição inaugural da versão latinoamericana da publicação, a Crise e Crítica, revista autônoma que publicará semestralmente textos em português e castelhano, expandindo e dando continuidade à orientação da Crisis and Critique.

Comemorando o lançamento da revista e os 100 anos da revolução bolchevique, o tema da edição inaugural será a própria Revolução de Outubro. Buscamos contribuições dedicadas à investigação das diferentes dimensões que compõem esse evento monumental e sua “vida após a morte”: avaliações políticas, ideológicas e históricas tanto das condições de possibilidade quanto de impossibilidade da revolução; análises que iluminem os processos políticos na America Latina do ponto de vista dos desafios enfrentados pelo movimento revolucionário russo, bem como novas análises das contradições e do legado da revolução bolchevique à luz das diferentes experiências políticas latinas: dos sandinistas, passando pela revolução Cubana e a história da esquerda no Brasil; textos focados tanto em suas figuras centrais quanto nas periféricas – de Lenin aos revolucionários esquecidos, como por exemplo Sverdlov ou Bogdanovich; investigações filosóficas engajadas com os diferentes movimentos iniciados com a revolução: experiências artísticas, políticas, econômicas e sociais; e também estudos psicanalíticos focados na natureza e na transformação das expectativas e sonhos na política.

Os textos podem ter entre 4.000 e 10.000 palavras e devem ser enviados em Times New Roman, 12, espaçamento 1,5, para o email: contato@criseecritica.org

O prazo para envio é até 1 de setembro de 2017.